Momento

Na rua em que passo há história

E passo alheio a ela.

As dimensões presentes que não me tocam

São-me estranhas, ainda que as conheça,

E que conheça a quem estranhas não sejam.

Não há, para mim, que o concreto.

Os raios de sol balouçam calmamente no piso pedregoso que olho de soslaio.

E, quase que sem saber, o peso de todas as realidades do mundo

E de todas as irrealidades que não são dele, ainda que lhe pertençam

Cai sobre mim e soterra-me da sensação indefinida de não sentir coisa alguma pelo que passou,

Senão pelo que passa,

Incerto do que passará.

Sobre tudo o que conheço, nada conheço senão o que conheço,

Ainda que neste momento vislumbre o que sei não conhecer.

Neste momento único, parado, em que a luz se desfaz nos seus reflexos temporais

E me mostra no limite da minha existência, os limites de existências para além da minha.

A visão periférica que me embala, e da qual não distingo contornos e cores, por ser periférica,

Sabendo que não a posso olhar directamente, por não poder virar o pescoço e os olhos para fora do meu ser e presente.

O asfalto está quente.

Reluz, paciente, sobre o sol frio que me aquece e não diz nada

Mas faz-me pensar.

Pensar, pensar, pensar!

Sem chegar a lado algum.

A que lado é que posso chegar, se não chego a sair de mim?

Penso momentaneamente, e momentaneamente tento agarrar os pedaços de consciência para além de mim,

Que fogem entre os meus dedos como memórias escorregadias,

E fico a pensar sem nada, porque tudo e momentaneo.

Penso sem pensar em que, penso sem pensar que penso.

A história da rua já não me diz nada

(Alguma vez o disse,

ou as pessoas que nela entravam,

alguma vez me falaram?

Não, talvez não.

Talvez não senão criação,

Da mente, eterna ilusão).

E olho sem ver as pedras espalhadas ao acaso, prova arbitraria do mundo.

Mundo momentaneo.

Vejo-te momentaneamente, penso-te momentaneamente, vivo momentaneamente para morrer a cada momento.

Quem passou, passou, nada há a pensar, ainda que pense, nem no que se passa nem no que se vai passar.

Quem passou teve o seu momento, e os que virão serão de quem os tiver.

E Amo momentaneamente.

Pela relação momentanea das coisas efemeras,

Pela efemeridade da momentaneadade das coisas e das relações…

Puro sistema complexo,

Máquina de movimento perpétuo,

Condensador de partículas do momento,

Máquina do tempo que nos transportas infinitamente sem sair do sítio

Megapixeis da minha consciência…

Acordo como que de repente, sabendo que nunca tinha dormido.

A estrada é a estrada.

O asfalto é o asfalto.

As pessoas não estão lá, e sei empiricamente que já estiveram, e que voltarão certamente a estar.

Terão as suas histórias, eu terei as minhas. Para que cruzar memórias?

Olho em frente, e sigo a andar. Há mais que fazer que pensar em nada.

Tudo veio e passou,

Como todas as ideias,

Como todas as vidas,

Como todas as histórias e como todos os universos,

Como tudo o que vem e passa.

Num momento.

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~ by Pedro Leitão on February 4, 2007.

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